quinta-feira, 5 de junho de 2014

Social e Sensível: A Sociologia em busca das Emoções e dos Sentimentos




A sociologia, em sua definição clássica, é considerada ser uma ciência do social, daquilo que é maior do que os indivíduos, daquilo que constitui o que chamamos de coletividade; nós sociólogos falamos em processos e fenômenos sociais, em estrutura social, em representações coletivas, em consciência coletiva, em ação social. Mas não há sociólogo, que, teoricamente, ou em sua prática profissional, não tenha se inquietado com os limites de tal definição.

Georg Simmel mostrou a importância dos sentimentos de fidelidade e de gratidão na construção dos laços sociais, Marcel Mauss, mostrou os elos comuns entre a sociologia, a psicologia e a antropologia, ressaltando a importância do estudo do simbólico, da magia, da troca e da dádiva para compreensão da realidade. Wright Mills conclamou os sociólogos a desenvolverem a sua imaginação sociológica; Goffman, descostruiu a idéia de que a emoção do embaraço fosse destrutiva dos laços sociais, e mais, que esta emoção é inerente a todas as interações face-a-face e a responsável pela manutenção e reprodução das regras sociais, da “ordem”, nas situações de convivio entre os indivíduos. Norbert Elias, desenvolveu e discutiu a relação entre indivíduo e sociedade e nos mostrou a importância da vergonha na transição da sociedade da corte para a sociedade moderna.

Na pratica cotidiana, o sociólogo que transpõe os muros da academia, se depara com inquietações não muito diferentes. O dito coletivo, é composto de indivíduos, são homens de carne e osso, de carne e sangue (para usar uma expressão de Sennet) que constituem o que chamamos de social. Quando vamos a campo o social se apresenta a nós através da observação, da investigação, da escuta; através de questionário, enquetes, e de entrevistas, encontramos os nossos dados, mas nem sempre ouvimos os sujeitos da nossa pesquisa, esquecemo-nos frequentemente que são os indivíduos que nos falam. O que chega a nós, os nossos “dados” nos contam as histórias desses indivíduos, as suas vivências, as suas representações, as suas subjetividades. O sociólogo pode transformá-las em números, em percentuais, e, à partir deles, fazer afirmações sobre tal realidade, fenômeno, ou tal ou qual grupo ou segmento social. Esse é um caminho, um caminho certamente mais seguro e mais ortodoxo. O outro, mais difícil e escorregadio, arriscado, menos científico, segundo os cânones de uma ciência pautada no modelo das ciências naturais, implica um exercício interpretativo, quase de uma arte, é usar as ferramentas que a sociologia nos oferece com a imaginação e a criatividade de quem não se limita a tecnica. É como a dança de quem, de dançar entende tanto que pode improvisar e a todos contagia com o seu dançar. Ou do poeta e do músico que nos leva às lágrimas com os versos que declama e a melodia das notas que entoa.

O outro caminho faz da sociológia um ofício, monta peça por peça o quebra cabeças da realidade social que analisa, preocupa-se em encontrar a riqueza escondida por tras do dado frio, o movimento complexo e multifacedo por trás das aparentes cristalizações, busca a dinâmica das relações sociais, considerando-as mais fluidamente como redes de interações entre pessoas reais, con-vivendo e lidando umas com as outras, lutando e sofrendo para produzirem suas condições de subsistência, mas também sua felicidade e seu prazer, para realizarem os seu desejos e sonhos. Optar por essa sociologia é buscar as interfaces entre os fenômenos que analisamos, é dar vida e voz aos sujeitos das nossas pesquisas.

A sociologia, e, mais especificamente, a sociologia das emoções, nos ofereçe instrumentos para isso. Podemos estudar a realidade, podemos falar de estrutura social, de classe social, sem nos deixarmos injeçar pelo enquadre teórico dessa ou daquela teoria e sem mutilarmos o sujeito e sem ignorarmos a sua subjetividade.

A incorporação das emoções e sentimentos como uma variável sociológica nos ajuda a fazer a ligação entre as dimensões micro e macro dos fenômenos, entre personalidade e estrutura, entre indivíduo e sociedade.

Aquilo que chamamos de social, é, via de regra, definido em oposição ao que definimos como o nosso “eu”, e que dissemos fazer parte da nossa interioridade, emoções que sentimos e que geralmente pensamos como se estivessem divididas entre um estado psicológico e algumas sensações experimentadas no corpo. Se são os indivíduos sujeitos da história, não se pode ignorar as suas motivações para agir, sejam elas conscientes ou inconscientes.

A analise tão cara aos sociólogos, acerca da produção e da reprodução da ordem vigente, implica, sob a perspectiva da sociologia das emoções, no desenvolvimento do “eu social” dos membros da sociedade da qual fazem parte e na socialização dos seus sentimentos (Gordon, 1981) de modo tal que, todos, ou quase todos (temos aqui os casos dos psicopatas, dos desviantes, dos revolucionários), se esforçam para agirem em conformidade com a ordem social vigente.

Isto significa que cada sociedade ou cultura provê “regras de sentimento” (Hochschild, 1979), que definem a conveniência ou não de sentir e de expressar essa ou aquela emoção (ou sentimento), conforme a situação social de interação (o que inclui a hierarquia de poder e status, o grau de aproximação, o número de participantes, etc.). A sociedade também oferece os “vocabulários” necessários para que os seus membros possam expressar os sentimentos sancionados por ela.

Conhecendo as regras e os vocabulários de sentimentos da sua sociedade os indivíduos tentam manejar a expressão dos seus sentimentos e emoções e tentam manejar até mesmo os próprios sentimentos, trabalhando-os para pôr-se de acordo com os padrões sociais que prescrevem a conveniência ou não de sentir e de expressar emoções e sentimentos (Hochschild, 1979). Essa capacidade, entretanto, não é isenta de conseqüências. Se a adequação dos sentimentos a esses padrões permite evitar emoções negativas (como a culpa, a vergonha e o embaraço, que podem comprometer a sua imagem e o seu status) e pagar o custo social da sua expressão, o alinhamento ao padrão reproduz as regras de sentimento vigentes na sociedade, isto é, reproduz os interesses e os valores da classe dominante que elas refletem. Tem-se que se a sublimação de certas emoções, como a raiva, por exemplo, e a evocação de outras emoções, a exemplo da empatia, pode favorecer a inserção do indivíduo e a coesão social, tal esforço pode, no limite, levar a alienação e a dissociação do “eu”.

Esse processo, entretanto não é visto pela sociologia das emoções como pacífico ou plano.

Tento como premissas que, no capitalismo, os sentimentos do indivíduo tornam-se uma mercadoria poderosa e desejada que potencializa os lucros, a capacidade de gerenciar as emoções passa a ser buscada pelo trabalhador. Apresentar-se como alguém capaz de ser simpático, afável, ponderado, autoconfiante, independe de suas emoções não corresponderem as que aparenta representa um diferencial para os empregos ou funções nas quais se lida diretamente com o público. trabalhador o negativas os valores disseminados pela ideologia da classe dominante com relação as emoções tornam-se padronizados em regras de sentimento, pode-se imaginar que o indivíduo não tenha escolha. Mas não é bem assim...

A adesão se dá a custa do sacrifício consciente ou inconsciente de seus sentimentos, da alienação, da apatia, da depressão, da indiferença e da passividade, mas há também a possibilidade que os indivíduos se tornem pessoas de sucesso e pró-ativas. Quando, entretanto, as discrepâncias entre as exigências normativas e as emoções experimentadas pelo indivíduo são tão extremas que ameaçam a integridade do próprio self, o indivíduos se dissocia e se aliena ou luta para mudar os padrões em desacordo.

Hochschild oferece-nos uma análise detalhada de como os indivíduos adultos tentam administrar seus sentimentos nas relações interpessoais, e, sobretudo, como nas relações de troca no mercado de trabalho, a capacidade de gerenciamento das emoções se torna uma mercadoria valorizada, comprada e vendida em certos tipos de emprego. Hochschild generaliza as suas conclusões para dizer que a desigualdade da estrutura social é reproduzida no processo de socialização emocional, processo este diferenciado, caso esteja relacionado às crianças da classe média ou da operária.

Kemper elege o poder e o status como categorias analíticas gerais aplicáveis ao longo do tempo e das sociedades. As emoções são, então, consideradas como resultados universais das relações diáticas dos indivíduos, considerando-se a posição hierárquica ocupada na estrutura de poder e status vis a vis os outros. Essas disposições relacionais dos indivíduos envolvem comportamentos e papéis padronizados quanto às obrigações e aos direitos a poder e status que cada um espera que o outro cumpra. A incongruência com relação aos direitos e deveres engendra “emoções estruturais” distintas, a depender da agência responsável pelo resultado obtido.

Há uma correspondência entre a estrutura social de poder e status e a estrutura orgânica. Assim, a emoção natural produzida, como resultado dos comportamentos padronizados de poder e status, não pode ser social ou culturalmente mudada, dado que poder e status envolvem emoções fisiologicamente enraizadas no organismo humano. Qualquer manejo da emoção ocorre a posteriori. A sociedade ou a cultura não tem o poder de mudar uma emoção, podem, porém, eliminá-la a um custo alto, mutilando o indivíduo, ou levar ao desenvolvimento de patologias.

Turner analisa emoções no âmbito das interações face a face. Sua tese central é que a expansão da capacidade de sentir (emoções positivas), de controlar emoções (negativas), e de desenvolver a linguagem não verbal (comunicação sem emissão de grunhidos), foi condição essencial para possibilitar a vida coletiva sem a qual a espécie teria sido dizimada. Essas capacidades, decorrentes da atuação do processo evolucionário de seleção natural sobre o cérebro humanóide, são então relacionadas às interações sociais das sociedades atuais. Assim, Turner considera que as sofisticadas emoções, encontradas na sociedade atual, são elaborações de emoções primárias e atribui a tensão permanente entre a liberdade individual e a cooperação, que caracteriza as interações, ao resultado do processo evolucionário que transformou o primata agressivo, independente e antissocial, em um ser gregário. O teórico em questão aduz também que há predominância da linguagem não verbal nas interações e que tal predominância ocorre em decorrência da necessidade evolucionária, sobrevivente do passado, de tornar os primatas em seres silenciosos para protegê-los dos seus inimigos e predadores. Essa é uma das suas tentativas de se contrapor a ênfase na linguagem verbal, que está no âmago das concepções culturalistas das emoções.

As emoções experimentadas nas interações estão associadas às expectativas dos indivíduos, considerando-se o grau de intimidade e proximidade mantido com os demais, e o número dos envolvidos no encontro. O comportamento dos indivíduos é pautado por um conjunto de símbolos que instruem e prescrevem padrões de comportamento, e recomendam “punições” e “premiações”. Os indivíduos transportam para as interações as posições de poder (autoridade) e status (prestígio) que ocupam na sociedade, de forma que os comportamentos dos participantes são influenciados e tendem a reproduzir as hierarquias.

Cabe a nós sociólogos o desejo e a disposição de fazer isso. É esse nesse tipo de sociologia que Gey Espinheira se aventurou e pela qual foi muitas vezes incompreendido, considerado por muitos um ensaísta. Quando decidir fazer das emoções o tema de minha tese de doutorado, Gey, com a generosidade e o entusiasmo que lhe eram peculiares, se dispôs a encampar o projeto e me orientar, quando o tema parecia um modismo norte-americano e a minha aprovação no doutorado duvidosa.

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