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domingo, 24 de fevereiro de 2013

Resenha do texto:

MAUSS, Marcel. A expressão Obrigatória dos Sentimentos. (1921) cap. 4.

    O capítulo analisa os ritos orais funerários de sociedades dadas como primitivas, encontradas na região do Rio Tully, Austrália. A partir da análise dos cantos funerários, Mauss objetiva demonstrar, para fins de generalidade sobre as manifestações sentimentais entre os primitivos, que há um emprego obrigatório e moral que sanciona a expressão de sentimentos de modo que os ânimos individuais (fisiologicamente e psicologicamente) referidos à ocasião do luto, no caso, tenham sua expressividade coordenada por dispositivos sociais (entendidos como exteriorização ao individual), determinada pelo caráter público da cerimônia, cuja funcionalidade responderia ao reforço dos laços de coesão. Portanto, os sentimentos não são, ou não são apenas, vividos de forma espontânea, mas construídos na interação social.
    Como dados para sua formulação, Mauss traz descrições acerca dos elementos orais que constituem o ritual – gritos, berros, voceros cantados, sessões espíritas e conversas com o morto – indicativas de que os sentimentos e ideias ali expressos são experiências coletivas demonstrativas da intensidade e densidade de interação do grupo. O autor ainda menciona outros trabalhos etnográficos que servem para precisar o caráter prefixado que arrola as designações e respectivas atitudes da expressão pública de sentimentos, a exemplo do regramento da duração do tempo de luto, da incumbência de agentes específicos (mulheres) como portadores do luto, estabelecendo quem e  por quanto tempo há de se chorar, cantar e gritar.  
    Nas últimas páginas do capítulo, Mauss sintetiza sua tese. Sua síntese propõe, então, duas assertivas elementares para a sua formulação: a interação entre as dimensões morais (contingência social) e “instintivas” (quando alude à associação do natural ao violento, à dimensão desregrada da conduta) produz o espaço no qual os sentimentos são expressos e, segundo, não há uma relação do conteúdo moral sobre a expressão de exclusão para com os sentimentos, mas estes, quando vivenciados em situação de interação, precisam ser revestidos por formas compartilhadas de expressividade, precisam ser convertidos em linguagem.
 
Por Taís Vidal
(Membro do grupo de pesquisa Cultura, Sociabilidades e Sensibilidades Urbanas - CRH/FFCH/UFBA).           

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Emoções "Indignadas": comentários a Zygmunt Bauman

O professor Bauman concedeu uma  entrevista ao jornalista Vicente Verdú, do El País na qual faz associações entre emoções fulgazes, transitórias, ou líquidas, no jargão do ilustre intelectual, e o movimento dos indignados http://www.outraspalavras.net/2011/10/18/das-emocoes-a-um-novo-movimento/ me arvoro aqui a tecer algumas considerações.
Se as emoções são, por definição, passsageiras, flúidas, ou “líquidas”, com bem coloca o professor, elas se transformam, no contexto das relações sociais, em sentimentos, e os sentimentos são, também, por definição, duradouros. No caso do movimento em questão o sentimento prevalecente é a indignação. Pergunto-me, se a emoção não constrói, como é afirmado, aonde nos levam a individualidade exacerbada, o hedonismo, e o sentimento de indiferença, prevalecentes em nossas sociedades? Ora, se é verdade que o movimento dos indignados pode ser visto como sem sustentação por lhe faltar uma proposta unificada, uma organização, uma liderança, eu me pergunto: será que as nossas referências não estão baseadas em um modelo ultrapassado? Finalista? Não podemos dizer que o movimento de mulheres ou o movimento ambientalista tenham mudado o mundo, mas seguramente ocorreram mudanças importantes.


Acredito que o estresse e a depressão ressultam de emoções experimentadas pelo 'eu' que são sistematicamente ignoradas e contidas, não sendo expressas elas se voltam contra a própria pessoa. Esquemática e simplificadamente, para limitar-me ao assunto em pauta, eu diria que o medo, longe de ser uma emoção temporária,  é uma emoção que está impregnada no cotidiano do dia a dia de todos aqueles que dependem de emprego para garantir a sua subsistência: medo de ficar desempregado, medo de nem chegar a ser um empregado. A raiva e a indignação, naturais diante de situações de desrespeito ou de injustiça, são, no âmbito profissional, reprimidas. Sob o emprego conquistado paira a nuvem escura e ameacadora do desemprego, e, para matê-lo o 'eu' paga um alto preço, sacrifica o que tem mais visceral, as suas emoções! A  Raiva sufocada   se disfarça sob a ropagem das emoções da  culpa e da vergonha e consomem o “eu”; por não ser o que se espera dele, por não ser um “sucesso”, por não conquistar e nem proporcionar melhores condições de vida para si e para os seus. A contenção sistemática dessas emoções estão na raiz de sentimentos contraditórios como o do sofrimento que se expressa no estresse e na depressão e, que tem como contraponto o de indiferença ou de apatia. Indiferença ou apatia, que são sentimentos construídos pelo “eu” através de enorme esforço pessoal e de permanente vigilância para ignorar as emoções experimentadas e evitar o sofrimento. E o faz de tal forma e com tal competência que estes sentimentos de indiferença e apatia tornam-se incorporadas como hábito prevalecendo no seu contato com o outro, criando uma barreira que garante ao “eu” a imunidade contra o sofrimento ou a sua possibilidade real ou projetada ou imaginada.


Por tudo isso é que considero, a propósito do texto apresentado pelo jornalista da entrevista de Bauman, que as emoções são fundamentais tanto para construção quanto para a desagregação social, ainda que a construção possa não trilhar os caminhos “ortodoxos” ou já conhecidos.

Marieze Rosa Torres

Salvador, 26/10/2011